A fé vem pelo ouvir

Atualizado: 17 de set. de 2021


Homilia do Pe. Françoá Costa no dia 05/09/2021, Paróquia Senhor Bom Jesus -Ceilândia- DF.

Texto bíblicos do 23 DTC: Is 35,4-7; Sl 145; Tg 2,1-5; Mc 7,31-37


Certo dia um grupo de monges estava escutando as santas lições. Aproximou-se um leão, um grande leão. Nesse momento, o pessoal perde a concentração na oração e começa a correr meio desesperado, exceto um monge, que fica quietinho enquanto a fera se aproxima. O leão caminhava somente com três patas, a quarta estava levantada. O monge se aproxima, pega a pata do leão, e observa que o leão está com a pata ferida. Esse monge corajoso é Jerônimo. Para ser mais eficaz em seu trabalho de veterinário, ele convida, dentre os monges, um que era menos medroso. Começam, então, a curar a pata do leão. Depois desse gesto de bondade de São Jerônimo, o leão ficou domesticado e ficou sendo o bichinho de estimação de São Jerônimo. Passou a ser algo comum ver o leão passear entre os monges e há várias história bonitas sobre esse “pet” do monge Jerônimo.


Esse santo monge morreu no ano 420, depois de uma longa vida entregue a Deus. O que o Evangelho tem a ver com o Evangelho de hoje? Começamos o mês de setembro, o mês da bíblia; contudo, é o mês da Bíblia por causa de São Jerônimo, que é comemorado no dia 30 de setembro no calendário litúrgico da Igreja. Fica quase patente então porque setembro é o mês da bíblia. São Jerônimo é, indubitavelmente, uma das pessoas mais sabias que passaram pela história da humanidade. Empenhou-se no estudo do latim de alta latinidade, do hebraico, do grego e do aramaico.


Em busca de um ambiente de oração e de estudo, São Jerônimo foi viver em uma cova perto da gruta de Belém e, durante trinta e cinco anos, ele se dedicou a traduzir as Sagradas Escrituras a partir das línguas originais – do hebraico e do grego – para a língua comum da época, a língua vulgar que era o latim; por isso a tradução de São Jerônimo chama-se Vulgata. Trata-se de um texto tão perfeito que, depois de mil anos de uso dessa tradução na vida da Igreja, o Concílio de Trento, no século XVI, que a Bíblia de São Jerônimo era tão perfeita, a tal ponto de não conter nenhum erro de fé nem de moral.


São Jerônimo foi amigo de São Gregório de Nisa, de São Basílio, de Santa Paulina, de santo Augustinho. Ele admirava muito santo Agostinho, ainda que houve um momento que eles tiveram um pequeno conflito, mas depois tudo se resolveu. Jerônimo tinha uma estima enorme por santo Augustinho e a reciproca era verdadeira: Santo Agostinho o admirava muito. São Dâmaso foi o papa que confiou a São Jerônimo que traduzisse a Bíblia. Algo maravilhoso: alguém que dedicou trinta e cinco anos de sua vida a traduzir toda a Sagrada Escritura.


Tudo isso porque no Evangelho de hoje (Mc 7,31-37), Jesus cura um surdo colocando sua mão nas orelhas do surdo. Com os dedos no ouvido do surdo, Jesus disse: Effata (abra-te!). Seria tão bom se, no mês de setembro, mês da Bíblia, os nossos ouvidos se abrissem para a palavra de Deus. É verdadeiramente significativo o fato de que Jesus toque com os seus dedos a orelha do surdo, porque, como diz a Escritura, “a fé vem pelo ouvir e o ouvir vem pela a palavra de Cristo” (Rm 10,17). Infelizmente as nossas traduções dizem “que a fé vem pela a pregação”, porém não é uma tradução exata, uma vez que na língua grega se lê que ”a fé vem pelo ouvir”.

Jesus coloca os seus dedos na orelha do surdo, e o surdo começa a ouvir. Cabe outra observação: os seres humanos, assim como os peixes, são pescados pela cabeça. Efetivamente, os primeiros Apóstolos de Cristo eram pescadores. Não quer isso dizer que Jesus Cristo queria que seus apóstolos não mais pescassem peixes, mas homens? De fato, Jesus disse isso a São Paulo: “Não serás mais pescador de peixes, mas de homens” (Lc 5,10), já que os seres humanos, assim como os peixes, são pegos pela a cabeça.

A orelha fica na cabeça e Jesus coloca os seus dedos na orelha. Ele cura também a nossa audição espiritual. Esses dedos que tocam os ouvidos dos surdos são os mesmos dedos que plasmaram o ser humano pois, como diz Gn 2,7: “Deus modelou o ser humano a partir da argila, do barro da terra”. Não daria para modelar o ser humano a partir do barro, se Deus não tivesse dedos. Foram os dedos de Deus que arquitetaram a pessoa humana. Deus tem, portanto, os segredos dessa construção que somos nós. Os mesmos dedos de Deus, hoje, em Mc 7, remodelam o ser humano a partir da fé que vem pelo ouvir, e o ouvir vem pela Palavra de Cristo.


Os dedos de Deus foram aqueles que escreveram nas duas tabas de pedra os dez mandamentos (Dt 9,10), porém, como se não fosse suficiente, Deus não querendo escrever apenas em tabas de pedra, promete uma nova aliança: “Deus vai escrever a sua lei nos corações dos homens” (Jr 31,33). Atenção: Jesus coloca a mão no ouvido do surdo porque os homens são pescados pela a cabeça, Nosso Senhor muda as nossas ideias, as nossas doutrinas, e finalmente chega ao nosso coração, escrevendo com seu dedo nos nossos corações. Tudo isso é tão real que a Lei de Deus já não é uma coisa externa que eu tenha que cumprir, mas ela encontra-se em nossos corações, escrita nos nossos corações. Jesus, com seus dedos toca os nossos ouvidos, porém do ouvido entra nas nossas mentes, chegando, desta feita, até o coração. Os dedos de Deus que modelaram o ser humano no início, continua a remodela-la através da fé, já que a fé vem pelo ouvir.


Atualmente, quando nós olhamos para as pessoas, nós vemos corpos e, por causa da atividade espiritual, intuímos a existência de uma alma imortal. Não vemos a alma, intuímos a alma. Vemos o corpo e sabemos a alma. Contudo isso vale para esse mundo, que é material, porém no mundo futuro, no século futuro, vai ser ao contrário: veremos a alma e vamos intuir um corpo (espiritual). É São Paulo quem o diz: “O corruptível vai se vestir de incorruptibilidade, e o mortal vai se revestir de imortalidade” (1 Cor 15,54). Agora nós vemos o corpo e intuímos a alma; no futuro, veremos a alma, e intuiremos um corpo.


Parece que atualmente Deus enfia seus dedos através dos nossos ouvidos, penetra o nosso cérebro, chega ao nosso coração. Depois fará o movimento contrário e nos virará às avessas. Desta maneira, o corruptível se vestirá de incorruptibilidade. Porém, no momento presente, ele começa enfiando o dedo no nosso ouvido, já que a fé vem pelo ouvir, e ouvir vem pela a palavra de Cristo. O bom Deus remodela o ser humano a partir da fé, a qual assenta-se na inteligência, é escrita no coração, e, então, de dentro para fora, como que virando o homem às avessas, a pessoa humana pode ser domada por Deus, ser domesticada por Deus, de maneira semelhante como o foi o leão de São Jerônimo.


Na verdade, a gente é um pouco fera, um pouco besta, um pouco bruto. O mesmo São Jerônimo tinha um caráter insuportável; ele era bravo. Talvez por isso mesmo Deus deu a ele um leãozinho, significando que enquanto ele domava um leão, domesticava a fera que era ele mesmo. Conosco acontece a mesma coisa: Deus enfia seus dedos santos nos nossos ouvidos, chegando à nossa mente, escrevendo suas leis nos nossos corações. Vira-nos às avessas e vai nos imortalizando, ajudando-nos a dominar esse leão, a besta que existe em cada um de nós.


Para ser dominado por Deus, nesse mês de setembro, poderíamos fazer uma série de bons propósitos para que sejamos mais atingidos pela fé que assenta-se na nossa inteligência e influencia a nossa vontade e ações: estar mais atentos a proclamação do evangelho, visitar mais a Bíblia, escolher um dos quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas ou João) e lê-lo sistematicamente, procurar entrar nas páginas bíblicas e caminhar com Cristo e seus amigos como se eu fosse mais um personagem do próprio Evangelho.


Que Jesus coloque os seus dedos santos nos nossos ouvidos, que ele me pesque pela cabeça. De fato, enquanto a religião for apenas uma coisa sentimental, nós não estamos convertidos. Somente quando Cristo nos pescar pela cabeça, mudar as nossas ideias, quando a gente parar de pensar de maneira pagã, ideológica e estranha, então estaremos verdadeiramente convertidos. Nesse mês de setembro, vamos procurar ter a docilidade do leão de São Jerônimo diante da Palavra de Cristo: que a agente levante a patinha, coloque a mesma nas mãos de Jesus, deixe que ele chegue perto de nós, que coloque os seus dedos nos nossos ouvidos. Assim poderemos escutar e ser remodelados pela fé, pela Palavra de Cristo. No final do Evangelho se diz que “Jesus Cristo fazia tudo bem feito” (“bene omnia fecit” – Mc 7,37). É certo: Nosso Senhor fará em nós uma obra maravilhosa, muito bem feita, só que é preciso deixar ele colocar os dedos nos nossos ouvidos: que haja fé verdadeira e poderosa em nossos corações.

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